Pulguinha

Atrasei este texto de propósito. Não queria mexer muito no assunto por razões óbvias, mas é inevitável.

Até há bem pouco tempo considerava-me uma “pessoa de gatos” rodeada por “pessoas de cães”. Em miúda convivi com alguns gatos em casa, mais por teimosia da minha irmã rebelde com tendência para encontrar (ou procurar?) bichinhos em apuros, do que por vontade própria. O meu pai adora animais e tivemos vários piriquitos, peixes, acho que um canário e um pato, mas cães não era muito prático para um apartamento de 3 quartos partilhado por 7 pessoas.

Tivemos pelo menos 3 gatos em casa dos meus avós. Não ao mesmo tempo, um de cada vez. Lembro-me de um siamês e de dois rafeiros, sempre meninos mas só porque calhou. Dos nomes só me lembro do Mimoso. Mais uma prova da minha péssima memória para nomes. Mas nenhum espécime canino.

Pulga Buda Sebastião, de seu nome. Foi o meu primeiro cão-companheiro, e único até ao momento. “Buda” da parte da mãe, “Sebastião” da parte do pai. Um Shih-tzu tricolor que fui buscar com pouco mais de um mês e meio de nascido. Apaixonei-me por ele à primeira vista ainda que só por fotografia que a criadora me enviou. Tinha ao seu lado o irmão, muito parecido, mas um pouco mais escuro e nitidamente mais forte e talvez tenha sido essa aparente fragilidade que me cativou de imediato.

A criadora do Pulga avisou-me que algo não estava bem com ele, que era melhor eu optar pelo outro cachorro. É uma criadora experiente e tinha-lhe detetado alguns sinais de possível patologia congénita, mas eu não quis saber. Já o tinha escolhido e quis tentar a sorte de ver se ele se safava. E foi-se safando!

Estava tão entusiasmada no dia que o fui buscar! Foi até umas semanas mais cedo do que é habitual porque tinha combinado com a criadora que o traria para ser avaliado pela médica veterinária da minha confiança. Já agora… estou a falar da Dra Patrícia do Aristocão, em Torres Vedras, e de toda a sua fantástica equipa.

Fiz uma surpresa às miúdas quando chegaram da casa do pai. Nem queriam acreditar! Já tinham dado por perdido o sonho de ter um cão exatamente porque sempre lhes disse que não era uma “pessoa de cães”, e que já tínhamos o Mickey, o nosso felino. O Pulga foi capaz de encantar toda a gente; uma bolinha de pêlo fofinho, super energético e dado, sempre pronto para brincar, roer, correr, simplesmente adorável!

O Pulguinha tinha um quadro convulsivo. Acontecia sem aviso, várias vezes no mesmo dia, ou então não acontecia por vários dias. Eram normalmente episódios de convulsões fortes mas rápidas que o deixavam um pouco desorientado logo após as crises e mais ou menos cansado. As primeiras suspeitas foram para um “shunt” hepático que conduziriam a uma disfunção do fígado. Foi sendo avaliado e vários exames foram realizados, mas nunca se conseguiu um diagnóstico definitivo da sua condição. As crises convulsivas foram sendo controladas através de medicação que se tornou diária, e através de dieta hepática. Apesar dos sustos, preocupações e custos inerentes, a companhia e “fofura” do Pulga faziam-nos esquecer a sua condição e dar todo o esforço por compensado.

Acabou por não resistir a uma infecção viral. Agressiva e muito complexa de ultrapassar dada a sua condição de doente crónico.

Fez parte da nossa família por cerca de 7 meses, tempo que foi de amor incondicional de parte a parte. Muitas lambidelas e roedelas de dedos. Muitas corridas desenfreadas, com encontrões pelo caminho (via mal, o pequenito), ataques de carinho ao Mickey (que o adoptou desde o primeiro dia) e a todos à sua volta. Era difícil dar-lhe colinho, tal era a excitação que tomava conta do bicho e estou convencida que não fazia ideia que era um cão.

Obrigada meu querido! Estou muito contente por ter seguido o impulso de te querer a ti, mesmo que incerto. Foste muito amado e amaste-nos na mesma proporção. A mim ensinaste-me que afinal também gosto de cães e que o amor se multiplica a cada animal que adotamos.

Amamos-te muito, Pulguinha, e temos muitas saudades.

Carla

Deixe um comentário