Tem sido uma ausência prolongada, desde que aqui escrevi o último texto. Era ainda Agosto e vivia a urgência de saborear cada dia de sol e calor, cada tarde de banhos no mar, cada hora com os dedos dos pés enterrados na areia quente. Vivia também o entusiasmo de sentir cada minuto de liberdade, anunciada provisória, sem máscara na cara (mas sempre cumprindo as recomendações e obrigações) e com o receio da pandemia diluído na mente embriagada de sol.
Mas o tempo sempre corre e a seguir aos dias de Verão veio o regresso às aulas e aos dias mais pequenos, vieram os espirros próprios da época, os números de novos casos a aumentar e as preocupações renovadas.
Está demorada esta pandemia. Arrasta-se há meses intermináveis e rouba-nos o tempo de recuperar. Assemelha-se àquelas séries televisivas que nos surpreendem nos primeiros episódios, que nos mantêm durante algum tempo agarrados a cada minuto de desenvolvimento da trama, e que depois se tornam só uma história do mais chata possível que já não nos entusiasma ou assusta. Simplesmente já ninguém tem pachorra para mais um episódio que seja, mas as temporadas continuam a surgir.
Não tenho braço de estudo de comparação entre como me sinto hoje, com como me sentiria se não tivéssemos tido esta pandemia. Questiono-me se eu teria feito o mesmo tipo de reflexão e desenvolvimento pessoais ou se teria acontecido de qualquer forma porque está intimimamente ligado à fase da vida em que estou. Onde me encontro hoje é o resultado deste natural crescimento potenciado por esta maleita global que nos tem acompanhado nos últimos (quase) dois anos? Muito provavelmente é isto mesmo.
Não tenho memória de outro período entre um a dois anos com efeito tão disruptivo na minha formação como pessoa. Ou então não estava atenta.

Dou por mim a lembrar-me, e ocasionalmente a usar, aquela expressão popular “só queria ter menos uns anos (não me consido decidir para que idade queria voltar) e saber o que sei hoje”. Certo! Que expressão tão de “gente velha”. Mas que faz imenso sentido porque reconheço que fiz um longo caminho pessoal e espiritual para me sentir hoje em paz com quem sou e com as escolhas que fiz. Não seria maravilhoso estar nos “trintas” e ter esta segurança e paz de espírito? A verdade é que seria maravilhoso mas artificial. O nosso crescimento interior precisa do seu tempo e processo de aprendizagem na primeira pessoa. Não se arranja num chip ou se instala por download.
Já o Mundo… Lembrar-se-ão de certeza de no início da ameaça da COVID dizermos que as pessoas saíriam melhores da experiência, que haveria mais Humanidade e Irmandade, que nos ajudaria a valorizar o que temos de bom em detrimento do que gostaríamos de ter. Infelizmente não acredito que é por aí que vamos. Acredito que foi um elemento potenciador do que há de bom, mas também do que há de mau nas nossas sociedades. E que a verdadeira dimensão desse “esticar das extremidades” ainda está para ser entendido; que talvez venha a acontecer quando acabar a Pandemia do vírus e emergir a pandemia da crise económica.
Ou então não! Em época de pedir desejos, o meu vai para um sentimento renovado de Esperança na boa vontade das pessoas e no Amor partilhado por muitos! A escolha é nossa.
Carla
