Sobre âncoras

Várias vezes no último ano dei por mim a pensar em como a nossa vida pode mudar repentina e radicalmente. Na verdade, como a dinâmica do Planeta inteiro pode alterar-se de um dia para o outro… e em como somos verdadeiramente impotentes e “pequeninos” perante essas mudanças.

A expressão “éramos tão felizes e não sabíamos” nunca antes foi tão usada, acho. E o estupor da expressão faz todo o sentido! Inúmeras vezes me preocupei, chateei, stressei, disparatei, desesperei por causas desprovidas de sentido, como não conseguir manter a casa arrumada como gostaria, ou ser obrigada a aguardar uns dias pela chegada daquele artigo que estava temporárimente esgotado. Não era?

Há alguns anos que tento ser menos “acelerada” e descomplicar mais, mas a @#&% desta Pandemia veio acelerar o meu processo interno de procura de espaço próprio e paz interior. Não estou a dizer que o consegui totalmente, longe disso, mas faço hoje muito mais por procurar e experiementar o que me dá prazer, alegria, satisfação, quietude e paz, do que há 1 ano e meio atrás. E com isso tenho óbviamente muito menos disponibilidade e paciência para o que me aborrece e destabiliza. Nem tudo é mau, portanto…

Pensei em partilhar convosco as minhas “âncoras” mais eficazes quando a ondulação provocada pelo “exterior” me ameaçam o abrigo. Funcionam para mim mas não quer dizer que sejam receitas universais. Funcionam em determinadas ciscunstâncias, horas e dias, não quer dizer que sejam a solução sempre. Mas são as “âncoras” a que recorro com frequência:

  • Olhar, cheirar e sentir o Mar.

Não há qualquer dúvida que o Mar exerce um poder enorme sobre mim. Foi sempre assim desde que tenho memória. Sempre fomos uma família de férias e lazer à beira-mar; na altura que era miúda passávamos dias inteiros na praia entretidos com as mais diversas atividades. Tenho muito boas lembranças da zona da Assafora e da Praia de São Julião; da Costa da Caparica (lá mais para o lado da Praia da Rainha) e da Quarteira e Manta Rota no pico do Verão.

O Mar tem esse poder incrível de me limpar a mente e de me acalmar, como se o sal da água, a areia quente e o murmúrio das ondas fossem os componentes de uma qualquer droga potente!

  • Um abraço sentido.

Reparem que não escrevo “um abraço sentido da pessoa x”. Óbviamente que abraços sentidos de certas pessoas me são mais queridos do que de outras, e que alguns desses abraços me são tão vitais como respirar; mas sim de alguém que me queira bem e me transmita essa energia vital. Tããããão bom!

A explicação mais provável é o fato de que quando abraçamos alguém com intensidade, sentirmos o bater do coração da outra pessoa. E que se essa pessoa está positiva e “de bem” o seu ritmo cardíaco vai ter um efeito calmante sobre o nosso, eventualmente em alvoroço. Como quando vivíamos na nossa primeira “casa” e ouvíamos e sentíamos o bater do coração da nossa progenitora. Isso é suposto transmitir segurança.

Ou então é só porque esse abraço nos transmite calor (porque não somos lagartos e temos sangue quente); ou porque sentimos a força e energia quando somos abraçadas por alguém com uns belos bícepes (huuummmmm…) e as borboletas que habitam a nossa barriga acordam e desatam a esvoaçar 🙂

Pessoalmente gosto particularmente do abraço sentido do meu papá e dos fugidios apertões dados pelas minhas filhas 🙂

  • Uma música especial ouvida em alto volume.

Ah! O poder curativo da música certa na hora certa! Sempre adorei música de todos os tipos e categorias, e sou daquelas pessoas que consegue ser transportada para lugares e tempos idos com uma canção. Fazem-me sorrir, chorar ou sonhar, e raramente passo sem ter música a acompanhar-me ao longo do dia. Só prescindo dela para ouvir o cantar da Natureza, porque de fato não há melodia mais bela do que a banda sonora do Planeta: o som do vento, do mar, dos pássaros… ou só o silêncio das montanhas (cobertas de neve e comigo a descer uma pista, de preferência).

Existem músicas para cada ocasião, certo? Posso partilhar algumas das minhas: “Fast car” da Tracy Chapman para conduzir devagar e sem destino marcado, “Elevation” dos U2 para conduzir com pressa mas em segurança, “Streets of Philadelphia” do Boss para refletir com calma, “Fix you” Coldplay para me embalar a relaxar, “Eye of the Tiger” dos Survivor para treinar até cair, “Nowhere fast” dos Fire Inc para dançar sem amanhã (OMG, as memórias que esta me traz!!!), “I don’t want to miss a thing” dos Aerosmith para amar apaixonadamente e”Se eu fosse um dia o teu olhar” do Pedro Abrunhosa para amar… devagar 🙂

E isto tudo está intimamente ligado com a âncora seguinte…

  • Dançar em entrega total. (como se ninguém estivesse a ver)
  • Além de um potente salva-vidas em alturas menos boas, é uma importante âncora para usar em qualquer ocasião e sob um qualquer estado de espírito. Tornou-se para mim uma parte essencial do meu bem-estar. Martha Graham (bailarina norte-americana com grande impacto na história da dança moderna) disse que “a dança é a linguagem escondida da alma” e eu acho que ela não podia estar mais certa.

    A dança sempre esteve presente nas minhas vontades e imaginário, mas só por volta dos 40 anos é que encontrei o tempo para experientar aulas de dança. Comecei por ter aulas de ballet para adultos na mesma escola onde tinha inscrito a minha filha mais velha (Escola de Dança Movimento em Torres Vedras), e desde então já experimentei (e mantive) aulas de dança Jazz e Contemporânea para adultos. Tem sido um privilégio poder associar a vontade e necessidade de exercício físico ao gosto pela dança. Entretanto desenvolvemos uma comunidade fantástica de professores e alunos, e já não me vejo a passar sem estes momentos na minha vida!

    As minhas “âncoras” não se esgotam nestas 4. Poderia ainda referir a sensação da relva fresca debaixo dos pés descalços, o prazer de envolver-me num banho quente de espuma e esquecer o Mundo, ou saborear um bom vinho (sempre tinto e da região do Douro se possível) à meia luz e em boa companhia. E viajar, claro… sempre viajar! Mas isso ficará para outras conversas.

    A propósito de música e de dança, deixo aqui este clip dum pedacinho de um filme maravilhoso. Confessem lá…não sentiram o ímpeto de cantar a letra e mexer o pézinho ao som da música? Não?! Não estava alto o suficiente.

    Carla

    4 opiniões sobre “Sobre âncoras

    1. Texto maravilhoso em que me revejo na maior parte das letras.
      Espero que essas sensações tão boas, se prolonguem pela vida fora e que isto seja também um incentivo para quem ainda não sente o mesmo.

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