A coragem de ser Mulher

Não, não, não… por favor não desistam já de ler o texto, meus amigos género masculino e não-binário (em prol da inclusividade). Este não é um assunto exclusivo para mulheres, antes pelo contrário! Pretende ser uma reflexão, conjunta e amigável, sobre a coragem que é preciso para ser mulher.

Não é que nos seja dado a escolher, certo? Espera… na verdade agora já podemos escolher com os novos procedimentos de mudança de género cada vez mais desenvolvidos e respetivos enquadramentos legais. Por isso sim, podemos escolher. Mas quando vimos ao Mundo, não! Entramos de rompante numa identidade definida (ou indefinida) que não nos foi dada a escolher; foi apenas fruto do jogo das probabilidades entre os pequeninos “nadadores” que se apressaram a chegar à meta.

Isto lembra-me das mais variadas teorias sobre conceber meninos ou meninas. Algumas mais “científicas”, outras mais espirituais e ainda aquelas completamente sem base nehuma. Normalmente são as mais curiosas. Eu sempre achei muito divertida a teoria de que há os homens que só sabem conceber meninos (os grandes machões, claro!), os que só sabem “fazer” meninas (os mais sensíveis, dizem), e os que sabem todos os truques e portanto concebem meninos e meninas conforme lhes apraz. Como se fossem atiradores com maior ou menor pontaria, nas bancas da Feira Popular :))

Voltemos às mulheres e á sua coragem para o serem. Porque é precisa muita, senhoras e senhores, e não-binários (os discursos oficiais devem ser bastante complicados por estes dias…).

Começemos pela dimensão biológica: o que torna as mulheres tão especiais não vem sem fatura. E pesada. É enorme privilégio feminino poder gerar vida (com uma pequena ajuda, vá), trazer ao Mundo filhos , desenvolver um amor de pele com eles, cuidá-los para que se tornem a geração seguinte. Com isso vêm os períodos menstruais, TPMs, dores várias, gravidezes mais ou menos complicadas com os ganhos de peso e mudanças de auto-imagem associadas, partos mais ou menos dolorosos com eventuais episiotomias (o Goggle ajuda), amamentação mais ou menos fácil com eventuais complicações e SEMPRE a potenciar a gravidade natural, oscilações e distúrbios hormonais, pressão social para ter peso controlado e manter um corpinho bem feito , maior apetência para desiquilíbrios mentais , menopausa, osteoporose, bilhete grátis para o jogo de roleta-russa de dois dos cancros mais prevalentes (o da mama e do colo do útero)…enfim, já chega?

Mas depois há o outro lado da biologia. A que está relacionada com a exploração da nossa sensibilidade e feminilidade. Teria aqui tema para uma dissertação completa, mas não é o que se pretende neste artigo. A verdade é que o empoderamento (se se estão a questionar se esta palavra existe, devem estar a viver noutro planeta) e capacidade femininas parecem estar directamente relacionados com o seu grau de auto-conhecimento e libertação de “espartilhos” sociais e culturais. Nomeadamente no que à sua sexualidade diz respeito. Talvez um tema a desenvolver em breve.

Depois temos a dimensão social. E se na biologia as mulheres são todas mais ou menos semelhantes, na sociedade há toda uma panóplia de situações e enorme desigualdade. Há as que, como eu, tiveram o privilégio de nascer num país moderno tendencialmente civilizado e também tendencialmente igualitário, e depois temos uma maioria que habita locais com muito poucos recursos, países em guerra, em ambientes culturais em que as mulheres são exploradas, abusadas, desconsideradas. E salvo raríssimas exceções, nestes países e culturas as mulheres são mesmo o elo mais fraco.

Todos os anos, aquando do Dia Internacional da Mulher, aparecem os comentários já habituais sobre a suposta inutilidade da efeméride nos dias de hoje, e porque é que então não existe igual comemoração para o género masculino, e bla bla bla. Enquanto a igualdade de direitos para os géneros não for universal… sim, faz todo o sentido! Enquanto forem as mulheres a serem violadas e mortas como estratégia de guerra e repressão social, sim, todo o sentido! Enquanto houverem mulheres espancadas e mortas às mãos de quem as deveria respeitar, também! Enquanto as mulheres não puderem decidir sobre a sua própria vida, corpo e identidade, sim outra vez! Faz mesmo todo o sentido.

Discute-se também muito a dimensão profissional, ou de representação feminina nas sociedades mais “desenvolvidas”. Assuntos como os da remuneração igual para trabalho e capacidade iguais, acesso a cargos de topo, representatividade em cargos públicos e políticos, apoios (ou falta de) à maternidade , papel social e familiar da mulher, etc. Embora ainda não no estadio ideal acredito que estamos no bom caminho, até por uma questão de seleção natural (sim, aquela explicada por Charles Darwin). É cada vez mais evidente e reconhecido que as mulheres têm aptidões e características que as fazem mais aptas para papéis e responsabilidades que a História lhes tem negado. Ainda no outro dia lia um estudo sobre a correlação entre a sustentabilidade das organizações de e a representação feminina na cadeia de decisão das mesmas. E todos nós temos tido muito presentes os excelentes exemplos de liderança por mulheres de nações e organizações mundiais, onde a ponderação e compaixão femininas parecem ajudar em tempos de gestão de crise. E pragmatismo, muito pragmatismo.

Não defendo de todo que deveríam ser as mulheres a governar as organizações e o Mundo. Defendo que não há qualquer razão que não seja forçada e totalmente baseada em preconceitos, para as mulheres não correrem as mesmas “corridas” tendo acesso igualitário a qualquer oportunidade. Seleção baseada em capacidade e mérito e não no fato de terem um ou outro orgão presentes no seu corpo. Para isso é preciso continuar a combater preconceitos e mudar mentalidades. De todos, homens, mulheres e outros. Porque muitas vezes as mulheres são as suas próprias piores “inimigas”! No caso de alguma das leitoras deste texto estar em pulgas para comentar qualquer coisa do género “…eu tenho orgulho em ser mulher, esposa e mãe e acho que as mulheres são os pilares da família e que por isso se devem dedicar de corpo e alma à sua construção e manutenção da família ….”, fantástico! Muito bom para cada um e uma que sabem o que os preenche e qual o seu propósito na vida. Mas deixem a liberdade aos outros(as) para também viverem os seus propósitos e seguirem os seus sonhos! A liberdade de cada um vai até ao limite da liberdade do próximo.

Alguns estarão agora a pensar: “oh bolas, mais uma daquelas feministas…”. Não sei se sou. Por exemplo, irritam-me e sou absolutamente contra qualquer sistema de numerus clausus para garantir acesso das mulheres a cursos, cargos, ou qualquer outra coisa. Percebo o conceito e até acredito que nalguns casos só se possa começar um caminho para a tal alteração de mentalidades fazendo uso desse instrumento. Mas não gosto. Porque retira o mérito a uma mulher que tenha sido beneficiada por esse mecanismo. Porque parece dizer, “…vamos lá dar-lhes esta oportunidade porque senão não chegam lá…”. As mulheres podem lutar de igual para igual e vencer o que tiverem de vencer, sem favoritismos ou acessos diretos. Não nos paternalizem!

Às vezes penso que gostaria de experimentar ser homem se me fosse concedida a Graça de uma outra vinda a este Mundo. Porque sou curiosa e gosto de experimentar coisas novas. Gosto da ideia de me colocar “nos sapatos” dos homens e ver o Mundo pela sua perspectiva; sentir como eles.

Mas por outro lado… se estivesse na fila para escolher e tivesse mais de que uns segundos para decidir tenho a vívida sensação que voltava com os mesmos privilégios! 😊

Carla

Notas importantes:

Se é vítima de violência ou tem conhecimento de quem seja, denuncie! Contactos da Associação de Apoio à Vítima (APAV) aqui.

Informação sobre o cancro da mama e sua prevenção aqui.

Informação sobre cancro do colo do útero e sua prevenção aqui.

4 opiniões sobre “A coragem de ser Mulher

  1. Muito Bem e concordo
    Viver e saber viver
    O segredo da nossa passagem pela vida
    É principalmente estarmos bem com nós próprio e aí estamos muito mais disponíveis para os outros
    Beijinhos Grandes
    Carlos Martins

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  2. As mulheres estão cada vez menos mulheres e os homens cada vez menos homens! Desculpem mas parece-me que as mulheres estão a dar um tiro no pé! Parece-me que a luta pela igualdade está a tornar-se um obsessão cega, sem fronteiras! A natureza “Deus”, fez a mulher diferente do homem, não foi porque se enganou! Eu recuso-me a aceitar a igualdade, sou machista ou cavalheiro? Talvez a minha mentalidade “cavalheiresca” se considere machista, não quero saber, sou como sou e quero manter as diferenças! Por alguma razão a natureza “Deus” deu-lhes diferenças, fez delas as mães, deu-lhes uma fonte in(esgotável) de energia, mesmo quando estão de rastos, tem uma força enorme, riem quando tem vontade de chorar, sacrificam-se voluntariamente pelos seus, fazem-nos acreditar, fazem-nos voar e trazem-nos a terra, fazem-nos amar e sofrer, fazem-nos felizes e chorar, fazem-nos rir e doer, fazem-nos brilhar e em farrapos, fazem-nos grandes e humildes, fazem-nos sentir quem somos, fazem-nos amar e sentir amados, são um hino ao amor! Não queiram ser iguais aos homens! São diferentes porque são melhores, porque são maiores, lutem por manter a diferença! As mulheres estão cada vez menos mulheres “femininas” e os homens cada vez menos homens! Desculpem vou continuar a dar o braço, a abrir a porta, a dar a mão, a oferecer rosas, a dar carinho, e a tratar a mulher como a Cinderela. O dia mundial da mulher celebra a diferença, porque são diferentes, porque são melhores! Desculpem mas vou lutar contra a igualdade, eu quero a diferença, eu quero as mulheres mais mulheres, mais bonitas e confiantes! Quero sussurrar ao ouvido “o meu coração é teu” e ouvir “eu sei”, e sentir-me pequeno, porquê? Porque vocês são maiores.
    Paulino Serrano

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