O inferno na Terra

Não queria escrever este texto, não mesmo. Há alguns dias que luto com a inevitabilidade do tema e uma firme resistência em mergulhar num assunto que só traz tristeza, descrença e amargura. Comecei este blog para me dar prazer e libertação, mas sei agora que nem sempre vai ser prazeiroso. Mas se pelo menos trouxer alguma libertação, já terá valido a pena.

Não sou entendida em temas de politica Mundial, conflitos no Médio Oriente, crenças religiosas e de devoção em geral, ou em interesses económicos das grandes potências. Acredito que tenho um nível aceitável de conhecimento geral, sobre tudo um pouco, porque procuro ir buscar informação a várias fontes para obter uma imagem o menos condicionada e enviesada possível. Normalmente surgem-me muitas perguntas e dúvidas que me levam a procurar saber mais e construir uma opinião minimamente fundamentada… , e assim por diante. Talvez por isso me seja tão difícil perceber quem se mostra muito convicto seja do que for, não estado na posse de todos (ou da maioria) dos fatos. Essa atitude gera em mim uma desconfiança inata; coisa de gente habituada à dúvida científica, acho eu.

O que, sim sei, é que a população afegã vive por estes dias um inferno na Terra. Sei que famílias inteiras procuram desesperadamente encontrar uma solução para levar as suas vidas com um mínimo de dignidade e segurança, que milhares de crianças estão a perder os seus direitos básicos que lhes pudessem assegurar crescerem saudáveis e com perpectivas futuras. Que outros tantos milhares de mulheres vêem (uma vez mais) os seus direitos fundamentais serem-lhes retirados sem nada poderem fazer, sabendo que podem perder a vida se escolherem protestar. E que tudo isto acontece sob o olhar da comunidade internacional, que após a anunciada retirada das forças militares norte-americanas não encontra uma alternativa de impedir a transformação do Afeganistão numa espécie de reduto privado de grupos extremistas islâmicos.

Os Talibã são membros de um movimento fundamentalista e nacionalista islâmico que se difundiu maioritáriamente em territórios do Afeganistão e do Paquistão. São considerados como organização terrorista pela grande maioria dos governos da comunidade internacional. As suas “jihad” explicam-se como a luta constante contra os “inimigos” da religião muçulmana de forma a elevar o Islão e as suas leis. Depois há as variantes que remontam a tempos idos e se baseiam em interpretações díspares do Islão, dando origem a doutrinas mais ou menos radicais.

Durante o regime Talibã no Afeganistão, que durou de 1996 a 2001, muitas foram as restrições à liberdade individual, especialmente as das mulheres. À população em geral estavam proibidas a leituras de livros considerados não adequados, o visionamento de filmes de cinema ou televisão considerados perigosos e decadentes, o acesso à internet e música foi fortemente condicionado, assim como as manisfestações artísticas na sua generalidade. Adicionalmente as mulheres estavam impedidas de circular livremente quando não acompanhadas por um homem “responsável”, e o acesso à instrução, emprego, assistência médica, lazer ou distrações, estavam fortemente condicionados. Eram obrigadas aos uso do véu total e a manterem-se “invisíveis”. Por exemplo, não lhes era permitido fazerem ruído ao caminharem, numa total anulação da condição feminina e humana. Para estes extremistas, o papel da mulher é exclusivamnte o da geração e criação dos filhos. Mesmo entre marido e mulher não existe afinidade; a “afinidade” existe entre os homens.

Photo by Hasan Almasi on Unsplash

Como militante incondicional da liberdade de escolha, que sou, não discuto crenças religiosas. E não condeno práticas culturais diferentes, sociedades mais patriacais ou matriacais, culturas que valorizam proveniência familiar, tribal, o que seja. Desde que todos sejam tratados com respeito, que possam viver com dignidade individual e que cada um seja livre de escolher acatar ou não as “leis” em vigor. E se não se rever nessas regras, que possa ter a liberdade de procurar outro caminho. Como mínimo dos mínimos, que cada um seja livre de abandonar uma sociedade onde não se sentem bem e de cujos valores não partilham.

Photo by Mohamed Nohassi on Unplash

Não entendo esta retirada precipitada e catastrófica das forças militares norte-americanas, deixando para trás um caos instalado. Não entendo que possam virar as costas e escolher que a manutenção da ordem e liberdade naquele território não é mais “um problema deles”. Não desta forma precipitada e unilateral. Não deveriam os EUA trabalharem no sentido de uma transferência de poder gradual e “musculada”, em conjunto com os seus aliados? Não consideram ter um dever de humanidade para com a população afegã sabendo o que estará em causa assim que saírem do território?

O presidente afegão decidiu abandonar o país depois de ser iminente a tomada do poder pelos Talibã e foi, óbviamente, criticado por isso. Mas que perspectiva poderia ter depois de ter sido deixado de fora das conversações entre os EUA e os Talibã, processo iniciado pelo presidente Trump (e que o Biden resolveu manter), com vista à retirada das forças americanas? Uma grande trapalhada que se estenderá por anos e terá consequências devastadoras para tantas vidas.

Temos assistido nos últimos dias à situação de crise no aeroporto de Cabul, para onde milhares de afegãos se dirigiram na esperança de poderem abandonar o país. Entre eles inúmeras crianças e mulheres, que vêm nessa fuga a sua única hipótese de sobrevivência. A situação deteriora-se a cada hora que passa com as pessoas sem quaisquer condições de higiene e segurança nessa espera e com as forças aliadas a tentarem ajudar como podem. Famílias separam-se sem saberem se voltarão a reunir-se. Muitos sucumbem de exaustão e desespero. A data limite para a retirada das tropas extrangeiras foi negociada para 31 de Agosto e corre-se contra o tempo para salvar vidas.

Fico agoniada quando imagino o desespero de quem espera para lá daqueles muros enquanto assiste aviões a chegar e partir, e não sabe se conseguirá salvar-se e à sua família. É só triste demais e completamente inumano. Entretanto já ocorreram dois atentados suicidas reivindicados pelo Estado Islâmico (outro grupo extremista) dos quais resultaram cerca de 60 mortos entre afegãos e forças estrangeiras. Ainda hoje os EUA atingiram com um rocket um veículo que transportava terroristas e explosivos, impedindo um atentado iminente.

Para qualquer crente num “Deus de Amor”, seja essa divindade a que quiserem lá colocar, deveria ser inconcebível o assassínio de irmãos de crença e cultura. De qualquer vida, já agora, mas mais ainda dos que lhes são mais próximos em costumes e similiridade. Não é? Como podem estes extremistas acreditar que estão a seguir os desígnios do seu Deus matando o próximo, destruindo a Vida que é só a obra desse mesmo Deus. Que Pai poderia apoiar que os seus filhos se matassem uns aos outros? É simplesmente inconcebível, imcompreensível, virtualmente impossível. Portanto não me venham com merdas! Não consigo conceber que os “homem-bomba” acreditem verdadeiramente que serão recompensados com a vida eterna no paraíso! Os seus atos só podem ser explicados por só conhecerem o ódio, e com ele viverem toda a sua vida. E em nome do ódio, agem. Tiveram o infortúnio de pertecer a uma realidade desesperante e vazia de perspectivas e simplesmente não conseguem sair da única realidade que conhecem. Infelizmente também há os que se perdem no seu caminho, os que até têm escolha e alternativa, mas que escolhem fazer o mal.

Photo by nega on Unsplash

Não faço ideia como resolver os problemas do Mundo. Este e outros tantos. Mas estou convicta que a ação gera ação, que a violência gera violência, que o ódio gera mais ódio. Acredito que só se conseguirá inverter esta espiral negativa se as ajudas e os “estender de mão” puderem ser vistos como não tendo outro interesse além do bem estar e prosperidade comuns. As desigualdades gritantes das nossas sociedades têm de ser esbatidas, se não completamente anuladas (o que francamente me parece inalcançável). O ódio pelo próximo só pode desaparecer quando TODOS, sem exceção, puderem ter acesso às suas necessidades básicas: alimento, água e segurança. Todas as outras necessidades são secundárias; não acredito em extremismos em populações que vivem com a dignidade e bem estar básicos. Vamos sempre ter desigualdades gritantes na nossa sociedade, mas o mínimo ao alcance de todos… não será possível?

Photo by Sohaib Ghyasi on Unsplash

O tempo urge. Em muitos sentidos. O tempo do Planeta, o tempo das sociedades como as conhecemos, o tempo de acreditar que ainda é possível. É responsabilidade de todos acabar com o(s) Inferno(s) na Terra.

Carla

One thought on “O inferno na Terra

  1. Por mim sempre fui apologista uma cabeça um voto
    O próprio Povo deve resolver as sua divergências ( se é para morrer então que seja por uma causa justa )
    Pouco ou nenhum resultado tem sido conseguido com ajuda estrangeira, que por mim só devia se ajudar em causas de calamidades

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