Felicidade? Talvez…

Com alguma frequência dou por mim a reflectir sobre o que é que constantemente procuramos; o que perseguimos de forma incessante. Será mesmo uma busca pela felicidade? O que é isso, a felicidade? E será alcançável? Vamos partir do pressuposto que sim; então e depois? O que fica para fazer uma vez alcançada essa famigerada felicidade? Com o que nos ocupamos (e preocupamos) a seguir? O que poderia fazer uma pessoa total e absolutamente feliz, realizada, já agora? O conceito de “ser feliz” traz-me muitas perguntas.

Estou convencida que cada um de nós tem metas distintas a alcançar e sonhos próprios a realizar, e também por isso o conceito de felicidade é muito individual e personalizado. Muita gente diria que a sua felicidade plena passaria por ter dinheiro em abundância (quanto, exatamente?) para poderem adquirir os artigos e experências com que sonham, uma ou mais casas espaçosas, possibilidade para disfrutar de viagens entusiasmantes e conhecer locais novos, ou talvez usufruir de uma determinada posição social. Outras acrescentariam ainda poderem gozar de uma saúde de ferro e terem as pessoas certas ao seu lado. Outras tantas seriam bastante mais pragmáticas (e ajuízadas) e admitiriam que seriam totalmente felizes se pudessem contar com uma família unida em que todos gozassem de saúde, se tivessem um trabalho sólido que os preenchesse, se morassem numa casa confortável e tivessem recursos financeiros para fazerem umas quantas loucuras e viagens por aqui e acolá.

Está claro que a relatividade de tudo isto liga-se com a situação em que se encontra cada pessoa… se está sem trabalho, provavelmente o seu ideal de felicidade passa por arranjar um bom emprego; se está enfermo, sentir-se-á feliz por ter o seu problema de saúde resolvido; se sonha em ser pai ou mãe, a sua felicidade será plena quando esse sonho se concretizar… e assim por diante. Será assim tão simples? Nem por sombras! A famosa música do António Variações aplica-se muito bem neste contexto. No que á sensação de felicidade diz respeito acredito que a esmagadora maioria de nós “só está bem onde não está” e nos identificamos com o “quero sentir ao chegar vontade de partir para outro lugar”.

Sou uma permanente insatisfeita, ou melhor, costumava ser. Nos últimos tempos tenho feito um esforço consciente (e titânico) para contrariar a minha inata ansiedade de viver, de querer chegar depressa e mais além, de ter mais depressa o que sei que está para vir e experienciar o que ainda não senti. Sempre com pressa. Alguém se reconhece?

Não sou uma pessoa de solidões ou que me sinta completa enquanto sozinha. Nunca fui, nunca serei. Mas apreendi a gostar dos meus momentos a sós acompanhada únicamente pelos próprios pensamentos, tantas vezes ruidosos demais. Precisamos de tempo e recolhimento para “baixar o volume” desse barulho ensurdecedor, o da própria ansiedade por (sempre) mais. Venho a descobrir que o meu conceito de felicidade está em estreita ligação com a paz que se consegue quando (finalmente) o barulho acalma e passamos a disfrutar da pensamentos em surdina, ou mesmo de total ausência de pensamento. Se alguém alguma vez experienciou não conseguir dormir por dias seguidos devido ao próprio “barulho mental”, vai perceber o que descrevo.

Se a “felicidade” fosse o mesmo que “serenidade”, diria que já a teria alcançado várias vezes ainda que por breves momentos. Na serenidade e tranquilidade de manhãs calmas e preguiçadas, de dias arrastados no prazer de apenas sentir e viver o momento, nas horas em auto-mimo e reflexão. Mas isso não nos basta para sempre, infelizmente. Pelo menos a mim não me basta e em menos de nada lá vou outra vez para a intranquilidade e excitação da procura!

Como toda gente procuro e persigo a felicidade, e tudo bem. O problema está em saber qual a forma e rosto dessa figura que persigo. Como a reconheço? Quando lá chegar vou saber que cheguei? Então e depois? Ou será esse mesmo o plano divino, do Arquiteto de tudo? Será o seu plano que estejamos constantemente ocupados a procurar sem nunca alcançar, permanecendo assim totalmente envolvidos com a Vida e com a busca pelo Santo Graal da Felicidade?!!

Por agora estou feliz porque as miúdas estão a chegar. Um momento de cada vez…e que possamos disfrutar da busca!

“…Vou continuar a procurar a minha forma, o meu lugar, porque até aqui eu só estou bem aonde não estou…”

Carla

A coragem de ser Mulher

Não, não, não… por favor não desistam já de ler o texto, meus amigos género masculino e não-binário (em prol da inclusividade). Este não é um assunto exclusivo para mulheres, antes pelo contrário! Pretende ser uma reflexão, conjunta e amigável, sobre a coragem que é preciso para ser mulher.

Não é que nos seja dado a escolher, certo? Espera… na verdade agora já podemos escolher com os novos procedimentos de mudança de género cada vez mais desenvolvidos e respetivos enquadramentos legais. Por isso sim, podemos escolher. Mas quando vimos ao Mundo, não! Entramos de rompante numa identidade definida (ou indefinida) que não nos foi dada a escolher; foi apenas fruto do jogo das probabilidades entre os pequeninos “nadadores” que se apressaram a chegar à meta.

Isto lembra-me das mais variadas teorias sobre conceber meninos ou meninas. Algumas mais “científicas”, outras mais espirituais e ainda aquelas completamente sem base nehuma. Normalmente são as mais curiosas. Eu sempre achei muito divertida a teoria de que há os homens que só sabem conceber meninos (os grandes machões, claro!), os que só sabem “fazer” meninas (os mais sensíveis, dizem), e os que sabem todos os truques e portanto concebem meninos e meninas conforme lhes apraz. Como se fossem atiradores com maior ou menor pontaria, nas bancas da Feira Popular :))

Voltemos às mulheres e á sua coragem para o serem. Porque é precisa muita, senhoras e senhores, e não-binários (os discursos oficiais devem ser bastante complicados por estes dias…).

Começemos pela dimensão biológica: o que torna as mulheres tão especiais não vem sem fatura. E pesada. É enorme privilégio feminino poder gerar vida (com uma pequena ajuda, vá), trazer ao Mundo filhos , desenvolver um amor de pele com eles, cuidá-los para que se tornem a geração seguinte. Com isso vêm os períodos menstruais, TPMs, dores várias, gravidezes mais ou menos complicadas com os ganhos de peso e mudanças de auto-imagem associadas, partos mais ou menos dolorosos com eventuais episiotomias (o Goggle ajuda), amamentação mais ou menos fácil com eventuais complicações e SEMPRE a potenciar a gravidade natural, oscilações e distúrbios hormonais, pressão social para ter peso controlado e manter um corpinho bem feito , maior apetência para desiquilíbrios mentais , menopausa, osteoporose, bilhete grátis para o jogo de roleta-russa de dois dos cancros mais prevalentes (o da mama e do colo do útero)…enfim, já chega?

Mas depois há o outro lado da biologia. A que está relacionada com a exploração da nossa sensibilidade e feminilidade. Teria aqui tema para uma dissertação completa, mas não é o que se pretende neste artigo. A verdade é que o empoderamento (se se estão a questionar se esta palavra existe, devem estar a viver noutro planeta) e capacidade femininas parecem estar directamente relacionados com o seu grau de auto-conhecimento e libertação de “espartilhos” sociais e culturais. Nomeadamente no que à sua sexualidade diz respeito. Talvez um tema a desenvolver em breve.

Depois temos a dimensão social. E se na biologia as mulheres são todas mais ou menos semelhantes, na sociedade há toda uma panóplia de situações e enorme desigualdade. Há as que, como eu, tiveram o privilégio de nascer num país moderno tendencialmente civilizado e também tendencialmente igualitário, e depois temos uma maioria que habita locais com muito poucos recursos, países em guerra, em ambientes culturais em que as mulheres são exploradas, abusadas, desconsideradas. E salvo raríssimas exceções, nestes países e culturas as mulheres são mesmo o elo mais fraco.

Todos os anos, aquando do Dia Internacional da Mulher, aparecem os comentários já habituais sobre a suposta inutilidade da efeméride nos dias de hoje, e porque é que então não existe igual comemoração para o género masculino, e bla bla bla. Enquanto a igualdade de direitos para os géneros não for universal… sim, faz todo o sentido! Enquanto forem as mulheres a serem violadas e mortas como estratégia de guerra e repressão social, sim, todo o sentido! Enquanto houverem mulheres espancadas e mortas às mãos de quem as deveria respeitar, também! Enquanto as mulheres não puderem decidir sobre a sua própria vida, corpo e identidade, sim outra vez! Faz mesmo todo o sentido.

Discute-se também muito a dimensão profissional, ou de representação feminina nas sociedades mais “desenvolvidas”. Assuntos como os da remuneração igual para trabalho e capacidade iguais, acesso a cargos de topo, representatividade em cargos públicos e políticos, apoios (ou falta de) à maternidade , papel social e familiar da mulher, etc. Embora ainda não no estadio ideal acredito que estamos no bom caminho, até por uma questão de seleção natural (sim, aquela explicada por Charles Darwin). É cada vez mais evidente e reconhecido que as mulheres têm aptidões e características que as fazem mais aptas para papéis e responsabilidades que a História lhes tem negado. Ainda no outro dia lia um estudo sobre a correlação entre a sustentabilidade das organizações de e a representação feminina na cadeia de decisão das mesmas. E todos nós temos tido muito presentes os excelentes exemplos de liderança por mulheres de nações e organizações mundiais, onde a ponderação e compaixão femininas parecem ajudar em tempos de gestão de crise. E pragmatismo, muito pragmatismo.

Não defendo de todo que deveríam ser as mulheres a governar as organizações e o Mundo. Defendo que não há qualquer razão que não seja forçada e totalmente baseada em preconceitos, para as mulheres não correrem as mesmas “corridas” tendo acesso igualitário a qualquer oportunidade. Seleção baseada em capacidade e mérito e não no fato de terem um ou outro orgão presentes no seu corpo. Para isso é preciso continuar a combater preconceitos e mudar mentalidades. De todos, homens, mulheres e outros. Porque muitas vezes as mulheres são as suas próprias piores “inimigas”! No caso de alguma das leitoras deste texto estar em pulgas para comentar qualquer coisa do género “…eu tenho orgulho em ser mulher, esposa e mãe e acho que as mulheres são os pilares da família e que por isso se devem dedicar de corpo e alma à sua construção e manutenção da família ….”, fantástico! Muito bom para cada um e uma que sabem o que os preenche e qual o seu propósito na vida. Mas deixem a liberdade aos outros(as) para também viverem os seus propósitos e seguirem os seus sonhos! A liberdade de cada um vai até ao limite da liberdade do próximo.

Alguns estarão agora a pensar: “oh bolas, mais uma daquelas feministas…”. Não sei se sou. Por exemplo, irritam-me e sou absolutamente contra qualquer sistema de numerus clausus para garantir acesso das mulheres a cursos, cargos, ou qualquer outra coisa. Percebo o conceito e até acredito que nalguns casos só se possa começar um caminho para a tal alteração de mentalidades fazendo uso desse instrumento. Mas não gosto. Porque retira o mérito a uma mulher que tenha sido beneficiada por esse mecanismo. Porque parece dizer, “…vamos lá dar-lhes esta oportunidade porque senão não chegam lá…”. As mulheres podem lutar de igual para igual e vencer o que tiverem de vencer, sem favoritismos ou acessos diretos. Não nos paternalizem!

Às vezes penso que gostaria de experimentar ser homem se me fosse concedida a Graça de uma outra vinda a este Mundo. Porque sou curiosa e gosto de experimentar coisas novas. Gosto da ideia de me colocar “nos sapatos” dos homens e ver o Mundo pela sua perspectiva; sentir como eles.

Mas por outro lado… se estivesse na fila para escolher e tivesse mais de que uns segundos para decidir tenho a vívida sensação que voltava com os mesmos privilégios! 😊

Carla

Notas importantes:

Se é vítima de violência ou tem conhecimento de quem seja, denuncie! Contactos da Associação de Apoio à Vítima (APAV) aqui.

Informação sobre o cancro da mama e sua prevenção aqui.

Informação sobre cancro do colo do útero e sua prevenção aqui.

Credo, que neura!

Não é propriamente um tema, não é importante para a Humanidade nem tem impacto (pelo menos não significativo) na vida de alguém a não ser na minha própria, não é atualidade nem está (só) relacionado com a Pandemia. Não é nada. Mas é sobre a minha neura que me apetece escrever hoje.

Sou uma pessoa positiva e animada por natureza, pelo que em 99,99% do tempo estou em modo alegre e sorridente. Mas todos nós temos uma lado lunar, como na música do Rui Veloso. E a minha Lua, quando chega, vem em fase Lua Cheia redondinha e brilhante visível de qualquer lado!

Comecei o dia da pior forma. No caminho para a escola da minha filha mais nova atropelei um pássaro que atravessava em vôo baixo a via rápida. Que imprudência a do bicho! E que estupidez a minha por achar que tinha de acelerar um bocadinho para a miúda chegar antes das 8.30. Se passasse uns milésimos de segundo mais tarde não o tinha apanhado e o bichinho teria seguido alegremente o seu vôo. Por outro lado, se tivesse pisado o acelerador só com um bocadinho mais de força… também o pobre tinha escapado. Mas não… infelizmente apanhei-o em cheio!

Quando cheguei ao destino fui, a medo, espreitar a frente do carro e lá estava um amontoado de penas pretas com umas patinhas no meio. Uma massa disforme entalada na grelha frontal do meu carro.

O segundo momento do qual me envergonho nas primeiras horas desta manhã foi quando tive de pedir a um pai que também deixava o filho na escola, para me dar uma ajuda a retirar o cadáver preso na grelha frontal do carro. Imagino alguns de vós a sorrirem e a pensarem: “claro, gajas…”. Lamento desapontar-vos mas sou normalmente muito prática e perfeitamente capaz de resolver qualquer assunto de forma autónoma. Por algum motivo senti-me incapaz de tocar no pobre animal, nem sei bem porquê.

Coitado. Estava totalmente defunto e era adorável. E o pai que me ajudou também foi adorável, já agora.

A sombra da minha neura foi uma daquelas presenças contínuas embora difusas durante todo o dia. A irritação fácil, a falta de paciência para os argumentos dos costume, a rotina inabalável de mais uma sexta-feira com os temas de sempre, a Pandemia que prevalece… Até a promessa de chuva que tanto me chateia mas que parece não passar de uma piada de mau gosto durante todo o dia. “Então? Chove ou não?!”

Nos últimos dias tenho andado particularmente entretida em aborrecer-me com o tema da vacina da AstraZeneca, e o drama à volta do “suspende-se ou não?” Não me vou alongar sobre o tema porque acho que já tudo foi dito e bem explicado sobre o tema. Precisamos de uma vacinação em massa contra a COVID-19 para podermos continuar a sonhar com a volta à “normalidade” nas nossas vidas.

Muito me têm irritado as teorias negacionistas e da suposta conspiração à volta da crise sanitária que nos atingiu globalmente. A pergunta que está sempre na minha cabeça é “perante a realidade que todos vivemos, como podem existir pessoas que a negam?”. Será que a triste evidência não lhes atravessa a barreira hemato-encefálica? Resolveram conscientemente viver em negação como estratégia de sobrevivência? Ou só são do contra, porque sim? IIIIIRRRRRRAAAAAAA!

Bom…adiante. Aposto que vão achar a irritaçãozinha que vos apresentarei de seguida como divertida, senão ridícula. Eu própria estou surpreendida com a minha reação ao tema, mas a verdade é que contribuiu para o astral de hoje.

Normalmente oiço a rádio Comercial quando estou no carro. Por inerência dos meus horários sou ouvinte de partes do programa da manhã e do final do dia. Não ficarão portanto surpreendidos se lhes disser que ao ir buscar a mais nova à escola, no final do dia, ouvia o programa “Já se faz tarde” onde existe uma rúbrica intitulada “A adivinha da Joana“. Para quem não conhece, a Joana Azevedo é co-apresentadora deste programa e diáriamente lança uma adivinha baseada num qulaquer (duvidoso) “estudo”, e a piada do jogo está nas tentativas do Diogo Beja, o outro co-apresentador, em adivinhar a resposta certa. Pronto, distrai o pessoal.

Ora hoje a adivinha foi a seguinte: “De acordo com um estudo, 41 anos é a idade média em que as pessoas dizem ser muito velhas para fazer uma coisa. O quê?” Se não ouviram o programa de hoje, acredito que vos passam pela cabeça respostas como: ter filhos, estudar, ter o primeiro emprego, sair de casa dos pais, ter o primeiro namorado(a), … Diria que algumas destas possíveis respostas são muito questionáveis, mas até admito que a maioria das pessoas pudesse ter respondido qualquer delas. Mas não.

A resposta correcta à adivinha de hoje era “dançarem em público”. What?!! Como assim? Às pessoas de 41 anos é esperado que não dancem à frente de outras pessoas? Não é apropriado? A sério?!

Não me vou alongar no que penso sobre este suposto estudo e do resultado do mesmo. Também nunca fui pessoa de me guiar por normas ou supostas etiquetas sociais. Mas se quisesse comentar teria aqui tema para impropérios e portanto, não seria adequado à minha provecta idade. Santa paciência!

Para terminar o dia em grande, tivemos hoje o assunto Sócrates e Companhia. Também não vou alongar-me até porque só a visualização do semblante vitorioso do personagem e a lembrança dos comentários que proferiu, é suficiente para sentir o estômago às voltas! Credo, que neura!!!

Resta-me tentar combater este estado de espírito e voltar ao meu registo natural. Vou ali meditar um bocadinho e entreter-me com qualquer coisa desprovida de conteúdo ou importância.

Salvou o dia a notícia que os séniores foram convocados para a vacinação na próxima semana, finalmente! Com a da AstraZeneca, claro.

Carla

Oslo, a “Organizada”

Janeiro 2020. Estávamos tão longe de saber o que aí vinha para alterar a vida como a conhecíamos. Viajei para uma semana de trabalho e resolvi ficar para conhecer a cidade durante o fim de semana. Abençoada decisão! Oslo revelou-se uma cidade moderna, acolhedora e entusiasmante. E cara, terrivelmente cara!

A verde e respirável capital da Noruega tem cerca de 600.000 habitantes numa área que ronda os 450 km2 (Lisboa tem à volta de 500.000 habitantes em 100 km2) e fica situada na ponta de um dos lindos fiordes pelos quais este País é conhecido. Como imaginam um fim de semana não permitiu conhecer tudo o que gostaria, por isso foquei-me na cidade e deixei os fiordes e paisagens naturais para uma oportunidade futura.

Instalei-me num pequeno hotel mesmo no centro da cidade, o que me permitiu caminhar para muitos locais e facilmente encontrar um transporte público para pontos mais distantes. Vale muito a pena adquirir online um passe da cidade, por ser uma alternativa económica e conveniente com acesso gratuito a transportes públicos e entradas em museus. Dica importante antes que me esqueça: existe um comboio muito conviniente (Flytoget Airport Express Train) em preço e horários, que faz a ligação do aeroporto ao centro da cidade. Não sigam o meu exemplo que fiz a viagem para a cidade de táxi e tive um primeiro embate doloroso na carteira!

Mesmo no centro da cidade, junto à ponta do fiorde de Oslo, encontra-se a Ópera de Oslo (Den Norske Opera & Ballett, Operahuset), o centro de artes performativas mais importante do país. É um edifício lindo e moderno inaugurado em 2008 e um símbolo imponente da arquitetura contemporânea. É um local muito aprazível de se visitar e aproveitar para conhecer o cartaz cultural da cidade. Tem um café muito simpático no interior e uma lojinha com artigos de ballet e dança onde me perdi durante algum tempo 🙂

Oslo é também conhecida pelos seus parques e museus. Na península de Bygdøy a cerca de 20 min de autocarro do centro da cidade, pude visitar o Museu dos barcos Viking (Vikingskipshuset) onde se podem ver este tipo de embarcações mais bem preservadas no Mundo. Foi muito interessante poder saber mais sobre como viviam estes povos e observar os barcos e outros utensílios da época.

Muito perto deste encontra-se o museu norueguês de História Natural (Norsk Folkemuseum), um recinto a céu aberto. Neste agradável parque podem ser visitados 160 edifícios que contam a história deste povo e do desenvolvimento do país, e perceber mais da sua cultura e vivências das suas gentes. Tudo está muito bem preservado e limpo, não fossemos estar num dos países mais organizados e asseados que já visitei!

No verão os visitantes deste museu ao ar livre são recebidos por figurantes vestidos com trajes tradicionais e existem muitas atividades para as crianças.

Todas as capitais na Europa têm um Palácio, seja ele ainda habitado pela realeza ou não. O de Oslo é um Palácio Real (Det kongelige slott) bonito e despretensioso, como tudo na cidade. É a residência oficial dos reis Harald e Sonja da Noruega e fica no final de uma das Avenidas principais, a Karl Johans Gate. Também aqui se pode assistir ao render da guarda do Palácio.

Não poderia falar de Oslo sem referir o “Nobel Peace Center“, onde se encontra toda a informação sobre os prémios Nobel da Paz, prémio este que é celebrado e entregue na Noruega. Apesar de Alfred Nobel ter nascido na Suécia e os outros prémios Nobel serem attibuídos nesse país, ficou em testamento que o prémio para a Paz deveria ser entregue na Noruega. O primeiro prémio desta categoria foi atribuído em 1901 e é celebrado anualmente a 10 de Dezembro.

Este museu é um ponto obrigatório para quem se interessa pela História Mundial e pelas figuras de destaque na defesa e promoção da Paz . Está muito bem organizado (já referi que em Oslo é tudo tão organizado que até chateia?) e vale a visita. A sala central tem uma visualização cronológica de todos os galardoados.

Oslo é uma cidade surpreendente em muitos aspetos. Em cada canto somos agraciados com edifícios históricos , arquitetura marcante , manifestações de arte, ou simplesmente o ambiente relaxante e acolhedor (e organizado…já disse, certo?). Uma das formas de melhor apreciar o “bater do coração” desta cidade é sentarmo-nos num dos muitos cafés ou restaurantes com vista para a rua e, também calmamente, apreciar o viver dos seus habitantes.

Países nórdicos são também sinónimo de neve e desportos de inverno. Já sabem que sou uma apaixonada do ski e por isso não pude deixar de guardar a manhã de domingo para visitar uma conhecida estância de saltos de ski, situada a curta distância da cidade: Holmenkollen. Só a viagem de carruagem elétrica vale pela vista enquanto subimos em altitude e vislumbramos o Fiorde de Oslo. Tudo na mais perfeita tranquilidade. Porque a calma e a organização daquela gente é de enlouquecer!

Chegados a Holmenkollen fiquei desiludida porque as condições atmosféricas não permitiram ver grande coisa. Mas deu para experimentar a sensação de descer a pista de saltos num simulador. Brutal!

Apesar de ser uma cidade dispendiosa, em Oslo conseguem-se hoteis e restaurantes muito centrais a preços acessíveis. São na sua grande maioria de design moderno, prático e despretensioso, mas sempre muito confortáveis e funcionais. Espero ter conseguido entusiasmar-vos a conhecer esta capital nórdica onde me senti muito bem recebida.

Gostei muito de conhecer Oslo e mal posso esperar para voltar para explorar as maravilhosas paisagens da Noruega! Fiordes, esperem por mim!

Carla

Saúde mental e mentalidades

Um tema incontornável nos tempos que vivemos, ou em qualquer tempo, na verdade. Mas desde que o estúpido do vírus nos estragou a vida, mais ainda (“estúpido do vírus” não é muito inteligente de se dizer porque essas coisas não têm cérebro para pensar. Achei por bem esclarecer; chamem-lhe defeito de formação :)).

As problemáticas da saúde mental, ou da falta dela, sempre me apavoraram e fascinaram em igual proporção. Talvez porque desde relativamente cedo senti na pele que o Mundo e modelo de sociedade em que vivemos não é para “fracos”.

Aqui faço uma pausa para introduzir a segunda parte do título deste texto…as mentalidades. Porque infelizmente as mentalidades vigentes gritam-nos que alguém que está mentalmente debilitado é fraco, e o mais provável é que nunca seja completamente são. Pelo sim, pelo não, é melhor manter a devida distância não vá ser contagioso!

Por volta dos 18 anos lembro-me de ter tido um primeiro “ataque de pânico“, avassalador na altura de tão inesperado e sem sentido. Tudo corria (aparentemente) bem; vivia em pleno o final da minha adolescência e a chegada da vida adulta, com a liberdade possível e a devida dose de insconsciência. Preparava a candidatura à faculdade (atrasada 1 ano para melhoria de notas), trabalhava em part-time para ter os meus trocos, o papá tinha-me arranjado um carrinho para dar umas voltas, conhecia e dava-me com quem queria e, do nada…zás! Recordo-me de não ter dado assim tanta importância, mas os episódios multiplicaram-se e ansiedade gerou ansiedade; o caso isolado tornou-se numa presença e ameaça constantes. Levou-me a visitas a médicos e exames vários porque tinha a certeza absoluta que tinha alguma doença grave! Prescreveram-me terapêuticas provavelmente desenquadradas e desnecessárias, mas mais grave, apoquentei-me e desgastei-me num tempo de crescimento, desenvolvimento e deslumbramento. A minha auto-confiança e capacidade de sonhar alto tiveram de ser recuperadas com esforço e paciência.

Segunda pausa. A luta mais dura que tive de travar foi com a minha própria “razão”, com a minha própria mentalidade. Sentia-me envergonhada e diminuída na minha condição de saúde mental em baixo. E pensava sem descanso nessa vergonha, em “loop” continuo (os psicólogos têm uma designação própria para este comportamento) com receio de nunca recuperar na totalidade. Com pavor de ser maluca!

A vida continuou o seu rumo e com relativo equilíbrio quando a minha mente se cansou de fazer de mim própria o centro do Mundo. Estudei, trabalhei, namorei, mudei de casa umas quantas vezes, casei, evoluí na carreira, tive filhas, viajei, sonhei… e por aí fora. As minhas ansiedades fizeram as suas aparições ocasionais, mas sem fazerem estragos significativos (não posso dizer o mesmo de outras manifestações, mas isso fica para outra oportunidade) porque já tinha aprendido a “desligar o botão” da repetição mental e a persistir no positivismo.

Olhando para trás e sabendo o que sei hoje (é aqui que me dou conta que sou mesmo cota!!) reconheço que o meu corpo e mente só fizeram o que lhes competia fazer. Todos os sistemas fisiológicos (aqueles muito primitivos, os reptilianos) funcionaram oferecendo os sinais que deveríam ter-me levado a agir para evitar ficar doente. Mas não! Teimosa como sou acho sempre que está tudo bem e um bocadinho mais de carga não faz mal a ninguém! Reconhecem-se?

Pausa de novo. Porque é preciso referir a mentalidade perniciosa de que temos que ser super-pessoas. Que podemos tudo e um par de botas. Só que não. Porque será que nos custa tanto admitir que não somos imparáveis, infindáveis e inabaláveis? Porque nos envergonhamos de nos mostrarmos frágeis? Os homens porque lhes ensinaram que não devem mostrar fraqueza e as mulheres porque queremos mostrar que podemos tanto ou mais que eles, talvez. Canseira!

Alegro-me por ver hoje o tema da Saúde mental ser abordado amiúde e abertamente nos media e redes sociais. Há cada vez mais pessoas com alguma projeção a usarem a sua influência para trazerem estas problemáticas à discussão, na tentativa de trazer alento e ajuda a quem pode estar a precisar. Temos o exemplo do Raminhos aqui por perto, ou o da Michelle Obama lá por fora. Parabéns!

Quem se sente mentalmente vulnerável precisa do mesmo que qualquer outra pessoa com déficit de saúde “física”: de ser ouvida e ajudada. De alguém que mostre que não está sozinho e que existe uma saída daquele estado, que vai recuperar. Precisa de verdadeira empatia.

Parece muito simples, mas não é. Por causa das mentalidades de quem está debilitado e não suporta mostrá-lo, e de quem não está e podia ajudar. Mas temo que para mudar mentalidades o caminho seja ainda muito longo.

Precisa de ajuda? Contacte o Aconselhamento psicológico do SNS24

Carla

Sobre âncoras

Várias vezes no último ano dei por mim a pensar em como a nossa vida pode mudar repentina e radicalmente. Na verdade, como a dinâmica do Planeta inteiro pode alterar-se de um dia para o outro… e em como somos verdadeiramente impotentes e “pequeninos” perante essas mudanças.

A expressão “éramos tão felizes e não sabíamos” nunca antes foi tão usada, acho. E o estupor da expressão faz todo o sentido! Inúmeras vezes me preocupei, chateei, stressei, disparatei, desesperei por causas desprovidas de sentido, como não conseguir manter a casa arrumada como gostaria, ou ser obrigada a aguardar uns dias pela chegada daquele artigo que estava temporárimente esgotado. Não era?

Há alguns anos que tento ser menos “acelerada” e descomplicar mais, mas a @#&% desta Pandemia veio acelerar o meu processo interno de procura de espaço próprio e paz interior. Não estou a dizer que o consegui totalmente, longe disso, mas faço hoje muito mais por procurar e experiementar o que me dá prazer, alegria, satisfação, quietude e paz, do que há 1 ano e meio atrás. E com isso tenho óbviamente muito menos disponibilidade e paciência para o que me aborrece e destabiliza. Nem tudo é mau, portanto…

Pensei em partilhar convosco as minhas “âncoras” mais eficazes quando a ondulação provocada pelo “exterior” me ameaçam o abrigo. Funcionam para mim mas não quer dizer que sejam receitas universais. Funcionam em determinadas ciscunstâncias, horas e dias, não quer dizer que sejam a solução sempre. Mas são as “âncoras” a que recorro com frequência:

  • Olhar, cheirar e sentir o Mar.

Não há qualquer dúvida que o Mar exerce um poder enorme sobre mim. Foi sempre assim desde que tenho memória. Sempre fomos uma família de férias e lazer à beira-mar; na altura que era miúda passávamos dias inteiros na praia entretidos com as mais diversas atividades. Tenho muito boas lembranças da zona da Assafora e da Praia de São Julião; da Costa da Caparica (lá mais para o lado da Praia da Rainha) e da Quarteira e Manta Rota no pico do Verão.

O Mar tem esse poder incrível de me limpar a mente e de me acalmar, como se o sal da água, a areia quente e o murmúrio das ondas fossem os componentes de uma qualquer droga potente!

  • Um abraço sentido.

Reparem que não escrevo “um abraço sentido da pessoa x”. Óbviamente que abraços sentidos de certas pessoas me são mais queridos do que de outras, e que alguns desses abraços me são tão vitais como respirar; mas sim de alguém que me queira bem e me transmita essa energia vital. Tããããão bom!

A explicação mais provável é o fato de que quando abraçamos alguém com intensidade, sentirmos o bater do coração da outra pessoa. E que se essa pessoa está positiva e “de bem” o seu ritmo cardíaco vai ter um efeito calmante sobre o nosso, eventualmente em alvoroço. Como quando vivíamos na nossa primeira “casa” e ouvíamos e sentíamos o bater do coração da nossa progenitora. Isso é suposto transmitir segurança.

Ou então é só porque esse abraço nos transmite calor (porque não somos lagartos e temos sangue quente); ou porque sentimos a força e energia quando somos abraçadas por alguém com uns belos bícepes (huuummmmm…) e as borboletas que habitam a nossa barriga acordam e desatam a esvoaçar 🙂

Pessoalmente gosto particularmente do abraço sentido do meu papá e dos fugidios apertões dados pelas minhas filhas 🙂

  • Uma música especial ouvida em alto volume.

Ah! O poder curativo da música certa na hora certa! Sempre adorei música de todos os tipos e categorias, e sou daquelas pessoas que consegue ser transportada para lugares e tempos idos com uma canção. Fazem-me sorrir, chorar ou sonhar, e raramente passo sem ter música a acompanhar-me ao longo do dia. Só prescindo dela para ouvir o cantar da Natureza, porque de fato não há melodia mais bela do que a banda sonora do Planeta: o som do vento, do mar, dos pássaros… ou só o silêncio das montanhas (cobertas de neve e comigo a descer uma pista, de preferência).

Existem músicas para cada ocasião, certo? Posso partilhar algumas das minhas: “Fast car” da Tracy Chapman para conduzir devagar e sem destino marcado, “Elevation” dos U2 para conduzir com pressa mas em segurança, “Streets of Philadelphia” do Boss para refletir com calma, “Fix you” Coldplay para me embalar a relaxar, “Eye of the Tiger” dos Survivor para treinar até cair, “Nowhere fast” dos Fire Inc para dançar sem amanhã (OMG, as memórias que esta me traz!!!), “I don’t want to miss a thing” dos Aerosmith para amar apaixonadamente e”Se eu fosse um dia o teu olhar” do Pedro Abrunhosa para amar… devagar 🙂

E isto tudo está intimamente ligado com a âncora seguinte…

  • Dançar em entrega total. (como se ninguém estivesse a ver)
  • Além de um potente salva-vidas em alturas menos boas, é uma importante âncora para usar em qualquer ocasião e sob um qualquer estado de espírito. Tornou-se para mim uma parte essencial do meu bem-estar. Martha Graham (bailarina norte-americana com grande impacto na história da dança moderna) disse que “a dança é a linguagem escondida da alma” e eu acho que ela não podia estar mais certa.

    A dança sempre esteve presente nas minhas vontades e imaginário, mas só por volta dos 40 anos é que encontrei o tempo para experientar aulas de dança. Comecei por ter aulas de ballet para adultos na mesma escola onde tinha inscrito a minha filha mais velha (Escola de Dança Movimento em Torres Vedras), e desde então já experimentei (e mantive) aulas de dança Jazz e Contemporânea para adultos. Tem sido um privilégio poder associar a vontade e necessidade de exercício físico ao gosto pela dança. Entretanto desenvolvemos uma comunidade fantástica de professores e alunos, e já não me vejo a passar sem estes momentos na minha vida!

    As minhas “âncoras” não se esgotam nestas 4. Poderia ainda referir a sensação da relva fresca debaixo dos pés descalços, o prazer de envolver-me num banho quente de espuma e esquecer o Mundo, ou saborear um bom vinho (sempre tinto e da região do Douro se possível) à meia luz e em boa companhia. E viajar, claro… sempre viajar! Mas isso ficará para outras conversas.

    A propósito de música e de dança, deixo aqui este clip dum pedacinho de um filme maravilhoso. Confessem lá…não sentiram o ímpeto de cantar a letra e mexer o pézinho ao som da música? Não?! Não estava alto o suficiente.

    Carla

    E pronto! Entrei nos 50s… e depois?

    Surgiu-me a ideia (seguida da vontade entusiasmante) para criar este blog há algumas semanas. Não sei dizer bem como ou porquê nem o que teve de especial esse dia para tal ideia me surgir. Sei que imediatamente me entusiasmou, e isso é a chave!

    Comigo sempre foi assim…os impulsos levaram muitas vezes a melhor, por vezes até à razão evidente e mais prudente. Mas a prudência não é para aqui chamada.

    Não senti quase passarem os 40s de tão apressada que estava, de tanto que aconteceu na minha vida nesse período! Mas isso fica para outras conversas.

    Não quero que o mesmo se passe com a próxima década nem com as seguintes. Também há algumas semanas fiz uma promessa a mim própria: que os próximos dez anos serão os mais preenchidos de aventuras e de alegria da minha vida! Estou determinada a isso, e quem me conhece sabe que uma vez determinada só um cataclismo me pode desviar do caminho.

    E se é para ser assim, a viagem não seria ainda melhor se partilhada e acompanhada pelos amigos com gostos comuns, ou a qualquer um que se queira juntar? Daí este blog.

    Não tenho muito jeito para a escrita, esse talento ficou mais com a irmã do meio, mas gosto muito de ler, vivendo e experienciando através dos textos impressos e acredito que esse gosto ajudará a exprimir-me neste canal.

    Estão todos convidados a comentar, sugerir, contribuir. Gostaría muito de fazer deste blog um lugar de partilha e reflexão, assim como de diversão! Sim… mais de diversão do que qualquer outra coisa 🙂 Acredito que se juntarão não só as raparigas e rapazes da minha idade, mas todos aqueles que não têm idade e preferem se definir pelos seus gostos e vontades.

    Fecho este texto inaugural com uma pergunta de Confúcio: “Qual seria a sua idade se não soubesse quantos anos tem?

    Carla