Um tema incontornável nos tempos que vivemos, ou em qualquer tempo, na verdade. Mas desde que o estúpido do vírus nos estragou a vida, mais ainda (“estúpido do vírus” não é muito inteligente de se dizer porque essas coisas não têm cérebro para pensar. Achei por bem esclarecer; chamem-lhe defeito de formação :)).

As problemáticas da saúde mental, ou da falta dela, sempre me apavoraram e fascinaram em igual proporção. Talvez porque desde relativamente cedo senti na pele que o Mundo e modelo de sociedade em que vivemos não é para “fracos”.
Aqui faço uma pausa para introduzir a segunda parte do título deste texto…as mentalidades. Porque infelizmente as mentalidades vigentes gritam-nos que alguém que está mentalmente debilitado é fraco, e o mais provável é que nunca seja completamente são. Pelo sim, pelo não, é melhor manter a devida distância não vá ser contagioso!
Por volta dos 18 anos lembro-me de ter tido um primeiro “ataque de pânico“, avassalador na altura de tão inesperado e sem sentido. Tudo corria (aparentemente) bem; vivia em pleno o final da minha adolescência e a chegada da vida adulta, com a liberdade possível e a devida dose de insconsciência. Preparava a candidatura à faculdade (atrasada 1 ano para melhoria de notas), trabalhava em part-time para ter os meus trocos, o papá tinha-me arranjado um carrinho para dar umas voltas, conhecia e dava-me com quem queria e, do nada…zás! Recordo-me de não ter dado assim tanta importância, mas os episódios multiplicaram-se e ansiedade gerou ansiedade; o caso isolado tornou-se numa presença e ameaça constantes. Levou-me a visitas a médicos e exames vários porque tinha a certeza absoluta que tinha alguma doença grave! Prescreveram-me terapêuticas provavelmente desenquadradas e desnecessárias, mas mais grave, apoquentei-me e desgastei-me num tempo de crescimento, desenvolvimento e deslumbramento. A minha auto-confiança e capacidade de sonhar alto tiveram de ser recuperadas com esforço e paciência.
Segunda pausa. A luta mais dura que tive de travar foi com a minha própria “razão”, com a minha própria mentalidade. Sentia-me envergonhada e diminuída na minha condição de saúde mental em baixo. E pensava sem descanso nessa vergonha, em “loop” continuo (os psicólogos têm uma designação própria para este comportamento) com receio de nunca recuperar na totalidade. Com pavor de ser maluca!
A vida continuou o seu rumo e com relativo equilíbrio quando a minha mente se cansou de fazer de mim própria o centro do Mundo. Estudei, trabalhei, namorei, mudei de casa umas quantas vezes, casei, evoluí na carreira, tive filhas, viajei, sonhei… e por aí fora. As minhas ansiedades fizeram as suas aparições ocasionais, mas sem fazerem estragos significativos (não posso dizer o mesmo de outras manifestações, mas isso fica para outra oportunidade) porque já tinha aprendido a “desligar o botão” da repetição mental e a persistir no positivismo.
Olhando para trás e sabendo o que sei hoje (é aqui que me dou conta que sou mesmo cota!!) reconheço que o meu corpo e mente só fizeram o que lhes competia fazer. Todos os sistemas fisiológicos (aqueles muito primitivos, os reptilianos) funcionaram oferecendo os sinais que deveríam ter-me levado a agir para evitar ficar doente. Mas não! Teimosa como sou acho sempre que está tudo bem e um bocadinho mais de carga não faz mal a ninguém! Reconhecem-se?
Pausa de novo. Porque é preciso referir a mentalidade perniciosa de que temos que ser super-pessoas. Que podemos tudo e um par de botas. Só que não. Porque será que nos custa tanto admitir que não somos imparáveis, infindáveis e inabaláveis? Porque nos envergonhamos de nos mostrarmos frágeis? Os homens porque lhes ensinaram que não devem mostrar fraqueza e as mulheres porque queremos mostrar que podemos tanto ou mais que eles, talvez. Canseira!
Alegro-me por ver hoje o tema da Saúde mental ser abordado amiúde e abertamente nos media e redes sociais. Há cada vez mais pessoas com alguma projeção a usarem a sua influência para trazerem estas problemáticas à discussão, na tentativa de trazer alento e ajuda a quem pode estar a precisar. Temos o exemplo do Raminhos aqui por perto, ou o da Michelle Obama lá por fora. Parabéns!
Quem se sente mentalmente vulnerável precisa do mesmo que qualquer outra pessoa com déficit de saúde “física”: de ser ouvida e ajudada. De alguém que mostre que não está sozinho e que existe uma saída daquele estado, que vai recuperar. Precisa de verdadeira empatia.
Parece muito simples, mas não é. Por causa das mentalidades de quem está debilitado e não suporta mostrá-lo, e de quem não está e podia ajudar. Mas temo que para mudar mentalidades o caminho seja ainda muito longo.
Precisa de ajuda? Contacte o Aconselhamento psicológico do SNS24
Carla

Senti isso na pele Carla. Esse momento em que percebemos que, ou somos fortes, ou vamos ser engolidas pela pressão. Compreendo. A nossa saúde mental sofre com isso. A pouco e pouco vamos ficando fracas, mas não podemos nem devemos mostrar (porque foi assim que nos ensinaram).
Eu própria dou por mim a não entender porque não conseguem superar um “problema” (que para mim era resolvido de outra forma), e têm de procurar ajuda profissional. Finalmente aceito que tem mesmo de ser. Também se pode estar doente sem ser fisicamente. Ainda esta semana se falou sobre isso ao jantar e realmente agora consigo entender. Obrigada.
Adoro o blog… ❤️
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Por vezes dou por mim a pensar o mesmo. Que as pessoas que não se sentem bem mentalmente deveriam reagir mais depressa ou mudar a sua forma de pensar. Esquecemos muito rápido as próprias dores ☹️
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